quarta-feira, 6 de junho de 2012

Espiritualidade fará parte de histórico médico daqui a alguns anos, afirma especialista

Há algum tempo, hospitais e médicos vêm utilizando a espiritualidade como aliado no processo de cura do paciente. Apesar de ser um assunto polêmico, muitos pesquisadores já apontam um papel positivo da espiritualidade e religiosidade em doenças coronarianas, hipertensão arterial, ansiedade, depressão, função imune e mortalidade em geral.

“De uma maneira geral, as pessoas interpretam todos os acontecimentos de sua vida sob uma visão espiritual e conhecer e respeitar esta interpretação é de grande ajuda para o doente e para o profissional que o assiste”, acredita Islan Nascimento, otorrinolaringologista e presidente da Associação Médico-Espírita da Paraíba.

Segundo ele - que coordenará um encontro sobre o assunto a partir desta quinta-feira (7) - o tema vem ganhando cada vez mais destaque. Para se ter uma ideia, de 1980 a 1982 o tema foi pesquisado e publicado em 101 artigos de revistas indexadas. De 2003 a 2005, foram 1,8 mil. Desde 2000, foram quase três mil artigos. “A medicina é baseada em pesquisas. Há 20 anos, ninguém questionava o paciente sobre seu histórico sexual. O tema era visto como algo particular. Hoje, é procedimento-padrão. Daqui a 20 anos isso acontecerá com a espiritualidade, que vem conquistando espaço nos consultórios e até na vida de artistas", complementa Islan Nascimento.

É o caso, por exemplo, do ator Reynaldo Gianecchini. Na luta contra um câncer linfático, o ator global decidiu aliar o tratamento convencional ao espiritismo, e parece não ter se arrependido. Em várias entrevistas concedidas, Reynaldo Gianecchini afirmou que o procedimento o deu forças para lutar pela cura, com tranquilidade.

E o ator não está sozinho neste pensamento. Segundo a revista Veja, cerca de 80% de pacientes vítimas de câncer no Brasil, recorrem a medicinas alternativas, geralmente ligadas à religiosidade, para complementar o tratamento alopático.

"Os dados são reais, mas só recentemente a medicina passou a reconhecer a existência de tais práticas", afirma Islan Nascimento, antes de concluir: "Existem estudos comprovando que a fé tem efeitos positivos na saúde das pessoas. Esses pacientes se sentem mais otimistas em relação ao sucesso dos tratamentos convencionais e, assim, além de se cuidarem mais, eles colaboram mais com os médicos. O objetivo é sempre usar o melhor da medicina convencional e o melhor da medicina complementar em defesa do doente".

Encontro nesta quinta abordará saúde e espiritualidade

Deixando de ser apenas "teoria" para se tornar realidade, a espiritualidade no processo de cura virou assunto sério nos consultórios e até de encontros científicos. A exemplo do 7º Encontro das Associações Médico-Espírita do Norte e Nordeste (Encontrame), que será realizado em João Pessoa, entre quinta e sábado desta semana, na Federação Espírita da Paraíba, na Torre.

Voltado para médicos, estudantes e profissionais de saúde e aberto ao público em geral, o encontro trará à capital paraibana, a presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil e Internacional, Marlene Nobre. A médica, que trabalhou com o médium Chico Xavier, ministrará a palestra de abertura do evento (Atualidade Científica na obra psicográfica de Chico Xavier), às 20h30.

Durante os dias do evento, especialistas da Paraíba, Pará, Ceará, Alagoas, Pernambuco, Piauí, Minas Gerais e São Paulo abordarão assuntos relativos ao tema central: "Saúde, Ciência e Espiritualidade". Entre eles, aborto do anencéfalo, células-tronco, Experiência de Quase Morte e Transtorno Bipolar.

ATIVIDADES PARALELAS

Paralelamente ao Encontro também serão realizados a 2ª Jornada Médico-Espírita Paraibana e o 1º Encontro Acadêmico em Saúde e Espiritualidade. Na ocasião, alunos universitários poderão apresentar trabalhos científicos sobre o tema. Os melhores trabalhos serão publicados na revista do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

O 7º Encontro das Associações Médico-Espíritas do Norte e Nordeste está sendo promovido pela Associação Médico-Espírita da Paraíba e pela Associação Médico-Espírita de Campina Grande, em parceria com a Unimed JP e com outras instituições do Estado.

Mais informações podem ser obtidas no blog da AME-PB (http://amepb.blogspot.com.br/).

Assessoria

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Paternidade responsável

Clara Lila Gonzales de Araújo
“E havia certo oficial, cujo filho estava enfermo em Cafarnaum. Ele, ao ouvir que Jesus viera da Judeia para a Galileia, foi até ele e rogava-lhe que descesse e curasse seu filho, pois estava prestes a morrer. [...] O oficial diz para ele: Senhor, desce antes que meu filho morra. Jesus lhe diz: Vai, o teu filho vive. O homem acreditou na palavra que Jesus lhe havia dito e partiu. Ele já estava descendo, quando os servos o encontraram, dizendo que o filho dele vive.” (João, 4:46-47 e 49-51.)1
A belíssima passagem da cura do filho de um oficial em Cafarnaum, narrada por João, destaca importante mensagem a ser refletida por nós, não apenas pela capacidade de Jesus em transmitir energias curadoras - efeito de seu extraordinário poder de agir sobre os fluidos apropriados, capazes de sarar, de forma instantânea, dores e males diversos –, mas pela singularidade da situação vivida por aquele pai que foi ao encontro do Mestre, esperançoso de salvar o filho. Apesar de sua situação de militar régio, que o destacava na sociedade judaica daquela época, não teve dúvidas em procurar Jesus para pedir-lhe ajuda.
O ato qualifica-o como pai amoroso e bom, preocupado com a grave situação familiar, e como homem submisso e cheio de fé na missão providencial do Cristo, certificando-se da grandeza do patrimônio divino, ao testemunhar a redenção do seu amado filho, e da magnitude da graça que havia recebido.
Esse episódio evangélico serve-nos como referência para a análise da lamentável situação espiritual de determinados homens, em desacordo com o expressivo preceito cristão, destacado anteriormente, que abandonam suas responsabilidades junto aos filhos gerados, na maioria das vezes negando a paternidade, afastando-se da parceira e provocando, “[...] naturalmente, em numerosas circunstâncias, o colapso das forças mais íntimas naquela que se viu relegada a escárnio ou esquecimento”.2 Espíritos encarnados que falham como pais, fugindo de suas obrigações no círculo doméstico e renunciando ao compromisso de viver ao lado dos filhos, alguns recém-nascidos, do que sobrevêm inúmeras crises futuras para aqueles que se sentem largados e desprezados por seus genitores, qualquer seja o meio social e econômico em que reencarnem.

A decisão de se querer comprovar a progenitura, por meio de exames da Medicina hodierna que contribuem para o reconhecimento biológico de filiação da criança em desamparo, concede ao filho determinadas vantagens pecuniárias ao ser confirmada a sua descendência, no entanto, tais recursos não invalidam a fraqueza, a negligência e a ignorância moral que são tendências perniciosas cultivadas pelo pai em prejuízo do pequenino ente desprezado. Essas providências médicas e jurídicas, entretanto, nem sempre são utilizadas por certas mães que se constrangem, envergonhadas, e preferem se desvincular de qualquer relacionamento com o agressor, tentando, individualmente, refazer a estabilidade de sua vida social e econômica em benefício do rebento a ser amparado. Mesmo considerando que a companheira prejudicada tenha a liberdade de se empenhar na luta em prol do seu reequilíbrio, é necessário que ela faça “revisão criteriosa do próprio comportamento para verificar até que ponto haverá provocado a agressão moral sofrida”,3 ao ter os elos afetivos rompidos de forma traumática.

Esse delicado assunto nem sempre é avaliado com a preocupação de se buscar soluções éticas e morais que contribuam para o equilíbrio espiritual das partes lesadas. A dor sentida pelos seres relegados ao abandono pode se transformar em procedimentos destoantes de uma vida mental e condição emotiva estáveis. Se alguma coisa se modifica na organização afetiva de um ser humano, ela repercute em todo o indivíduo, influenciando na sua capacidade intelectiva, nas suas atitudes e no seu comportamento. Algumas mães se ressentem tanto do abandono do parceiro que se tornam pessoas depressivas, amargas, sem esperanças; tornam-se irritadas, pouco afetivas e retraídas, e sentem-se desamparadas diante das necessidades filiais. Outras mulheres apegam-se em demasia aos filhos, expressando excesso de afeição e sentimento exagerado de conduta maternal. Além daquelas que, magoadas, negligenciam completamente os cuidados a se ter para com a criança! “[...] Apenas o amor que sabiamente se divide, em bênçãos de paz e alegria para com os outros, é capaz de multiplicar a verdadeira felicidade.”4

De que forma esses temas são tratados pelos autores espirituais?
Alertam-nos os Espíritos superiores sobre os cuidados que a mãe e o pai devem ter para com seus filhos:

É, sem contestação possível, uma verdadeira missão. É ao mesmo tempo grandíssimo dever e que envolve, mais do que o pensa o homem, a sua responsabilidade quanto ao futuro. Deus colocou o filho sob a tutela dos pais, a fim de que estes o dirijam pela senda do bem, e lhes facilitou a tarefa dando àquele uma organização débil e delicada, que o torna propício a todas as impressões. [...] Se este vier a sucumbir por culpa deles, suportarão os desgostos resultantes dessa queda e partilharão dos sofrimentos do filho na vida futura, por não terem feito o que lhes estava ao alcance para que ele avançasse na estrada do
bem.5


Muitos jovens, infelizmente, sucumbem, considerando os efeitos desastrosos que surgem da negligência dos pais no encaminhamento de suas vidas terrenas, entre eles o uso pernicioso de bebidas alcoólicas e de drogas ilícitas. Preponderâncias nocivas que são causadoras de graves problemas existentes no mundo, aplicáveis a uma parte da juventude atual, que parece priorizar certos defeitos, tais como: um ceticismo amargo e zombeteiro, transformando-os em homens e mulheres egoístas e indiferentes ao sofrimento alheio, em meio a conflitos de interesses pelas causas materiais, que parecem dominar suas expectativas para o futuro. Sobre o problema, Allan Kardec destaca os resultados da falta da boa educação moral, que consiste  para elena “arte de formar os caracteres”, porquanto “a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos”:

[...] Considerando-se a aluvião de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freio e entregues a seus próprios instintos, serão de espantar as consequências desastrosas que daí decorrem? Quando essa arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no mundo hábitos de ordem e de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de respeito a tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos penosamente os maus dias inevitáveis. [...] Esse o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, o penhor da segurança de todos.6

Outro gravíssimo problema, entre as várias abordagens que essas questões suscitam, refere-se, especialmente, à irresponsabilidade dos jovens que, desejando viver em desregramento sexual, tornam-se pais imaturos, sem aceitarem a filiação, entregando seus filhos aos avós para que eles os criem e assumam a incumbência de assisti-los em suas necessidades básicas, permitindo-lhes buscar novas e desvairadas experiências juvenis. A mentora Joanna de Ângelis, nobilíssima educadora espiritual, traz à tona essa situação, alertando-nos:

Habitem ou não os avós no mesmo núcleo, a sua deve ser uma conduta afável, sem interferências diretas no comportamento dos educadores. A sua experiência é-lhes válida, no que diz respeito aos seus compromissos em relação aos demais membros do clã, havendo cessado, ao concluir a educação dos filhos e deixando-os agora assumir os próprios deveres.7

Muitas vezes, pelos descomedimentos de mimos concedidos aos netos, os avós respondem “pelas extravagâncias desses órfãos de pais vivos”.8 Os jovens deveriam arcar com as obrigações ao escolherem os seus parceiros, aceitando, por amor, as lutas árduas e difíceis que travarão para a construção de uma vida a dois, tendo como primeiro dever os cuidados a oferecer ao ser em formação e ter o apoio de seus pais, cuja contribuição não deve ultrapassar os limites da sua condição de familiares e amigos, que compreendem a situação com tolerância e carinho.
Enquanto ignorarmos o alcance dos atos que cometemos, sobretudo os prejudiciais às demais pessoas, e suas consequências em nossos destinos, não conquistaremos melhoria espiritual. O problema é acima de tudo moral, e seremos infelizes enquanto praticarmos o mal.
É preciso fazer a parte que nos cabe para a renovação da sociedade! Indicamos, como providência de máxima relevância para este programa regenerador, o aprofundamento de estudos nas instituições espíritas, contribuindo para que os pais possam ampliar os seus conhecimentos sobre assuntos pertinentes à família e à educação num enfoque essencialmente espírita, à luz do Evangelho de Jesus.

Referências:

1DIAS, Haroldo D. (Trad.) O novo testamento. Brasília: Edicei, 2010.
2XAVIER, Francisco C. Vida e sexo. Pelo Espírito Emmanuel. 26. ed. 3. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap. 10, p. 51-52.
3______. ______. p. 53.
4______. ______. Cap. 11, p. 58.
5KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 91. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Q. 582.
6______. ______. Comentário de Kardec à q. 685.
7FRANCO, Divaldo P. Constelação familiar. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2008. Cap. 6, p. 50.
8______. ______. p. 51-52.


Publicado originalmente na revista Reformador (Edição - Maio de 2012)

terça-feira, 22 de maio de 2012

O dinheiro na Casa Espírita

Wellington Balbo

Se há um assunto ainda melindroso, um autêntico espinho para nós espíritas é o tema dinheiro.

Temos sérias dificuldades em lidar com questões pecuniárias.Parece-nos que o dinheiro é algo sujo, pecaminoso e que macula a figura de quem dele se serve.

No entanto, a bem da verdade é que o dinheiro é neutro, ou,melhor dizendo, uma ferramenta para fazer com que as coisas aconteçam.

Logo está subordinado ao destino que lhe empregam. Se o utilizam para o mal ou para o bem a culpa não é dele – do dinheiro – mas, sim, de quem fez seu uso. É a mão do homem que suja ou limpa e não o objeto em si. Mas qual a razão de ainda termos dificuldades em lidar com o dinheiro? Será que já paramos para promover esta reflexão íntima? Pode ser, quem sabe, que nosso modelo mental esteja obsoleto, ultrapassado e ainda vejamos no papel moeda uma autêntica tentação à moral e ética. Porém, reflitamos:

Quem paga as contas de luz e água da Casa Espírita? Os funcionários, quando esta os tem? Quem paga as despesas com limpeza e tantas outras que bem o sabemos existem? Dirão alguns: Daí de graça o que de graça recebestes. Excelente!

Jamais o centro espírita irá cobrar por reunião mediúnica, passe, atendimento fraterno e etc. Todavia, sejamos sensatos: É necessário dinheiro para pagar as despesas acima! Seria justo apenas alguns colaboradores doarem? Seria justo usufruirmos de todos os benefícios que recebemos sem ao menos cogitarmos de colaborar financeiramente com qualquer quantia? Por favor, não digam que estou querendo manchar a Casa Espírita ou impor valores instituindo o dízimo. Não merefiro a dízimo. Nada disso!

Falo de bom senso. O bom senso de sabermos que é de bom tom colaborar para que as coisas aconteçam, porquanto, quer queiramos ou não, o dinheiro é necessário para a manutenção e ampliação das atividades de qualquer Casa Espírita.

Obviamente que não me refiro àqueles que passam por dificuldades financeiras. Falo de bom senso, apenas isso! Questionarão alguns: Mas já dou minha colaboração na Casa Espírita e ainda preciso colaborar financeiramente? Não se trata disso, caro leitor. Você não precisa nada, se não quiser ninguém lhe obrigará a dar um centavo na Casa Espírita. Falo, repito, debom senso, apenas isso! A demais não é a Casa Espírita que precisa de nós, ao contrário, somos nós quem precisamos da Casa Espírita e dos trabalhos que ela desenvolve para que mantenhamo-nos sempre trabalhando e dispostos a evoluir.

No entanto, para não me alongar demais neste texto, convido todos nós a reflexões:

Como enxergamos o dinheiro? Algo sujo, pecaminoso e que não pode se envolver em assuntos “espirituais”, leia-se aqui Casa Espírita? Ou o vemos como uma ferramenta para promover o progresso humano na Terra? Como estamos lidando com esta questão? Que tal chacoalharmos os neurônios e indagarmos nossos próprios modelos mentais?

Pensemos nisso.


Artigo publicado originalmente no Site da Fundação Espírita André Luiz (FEAL)

domingo, 20 de maio de 2012

O espírita ante a política

Christiano Torchi
 Em sentido lato, a política se entrecruza com várias outras ciências, entre elas a Filosofia, a História, a Economia, o Direito... Entretanto, é com a Sociologia que ela possui laços mais estreitos, visto que tem seu nascedouro na própria sociedade. Segundo essa visão, inspirada em Aristóteles, o homem é um animal social e político. Herança da Grécia antiga, berço da democracia, o termo política deriva-se do grego politikós, alusivo às antigas cidades gregas organizadas (pólis), que teriam dado origem ao modelo de vida urbano contemporâneo, onde os homens se aglomeram em busca da sobrevivência e do progresso, sujeitando-se a uma administração pública regulada por normas coletivas de convivência.

Na Idade Média, Tomás de Aquino (1225-1274) já preconizava que a finalidade da política é o bem comum. Modernamente, a política é designada como a “Ciência do Estado”, podendo ser definida como a arte de governar. Sob esse prisma, ela será sempre o exercício de alguma forma de poder. Quando utilizada corretamente, gera bem-estar e prosperidade, bem assim contribui para a manutenção da paz e da ordem. O Espiritismo abrange todas as áreas do conhecimento, sob tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso, razão pela qual não está alheio à Ciência política ou a qualquer outro ramo do conhecimento humano. Todavia, o Espiritismo não tem por missão específica fazer reformas sociais, mas, pela amplitude dos seus ensinamentos, é a doutrina mais apta a coadjuvar tais reformas, à medida que influencia a sociedade, estimulando o aprimoramento moral, sem que seja preciso acumpliciar-se com a política partidária, em contradição com o caráter laico1 do Estado:

[...] A missão da doutrina é consolar e instruir, em Jesus, para que todos mobilizem as suas possibilidades divinas no caminho da vida. Trocá-la por um lugar no banquete dos Estados é inverter o valor dos ensinos, porque todas as organizações humanas são passageiras em face da necessidade de renovação de todas as fórmulas do homem na lei do progresso universal, depreendendo-se daí que a verdadeira construção da felicidade geral só será efetiva com bases legítimas no espírito das criaturas.2

A seu turno, qual seria a missão dos espíritas, enquanto homens no mundo? Sem embargo da tarefa de divulgação e da vivência dos princípios da Doutrina Espírita, ela é a mesma de qualquer indivíduo, religioso ou não, como elucidam os Espíritos na primeira obra básica. Consiste “em instruir os homens, em ajudá-los a progredir, em melhorar suas instituições, por meios diretos e materiais”.3 Nesse contexto, será mesmo útil e necessário, para que o Espiritismo cumpra sua missão, a politização do Movimento Espírita, como defendem alguns? Parece-nos equivocada a ideia de que o Movimento Espírita careça de engajar-se na militância política, fundando partidos ou organizando bancadas, como forma de se fazer representar perante os poderes constituídos, com o objetivo de divulgar, oficialmente, os seus princípios, colaborando, assim, com a reforma social, no combate às mazelas sociais.

De má lembrança são as conspurcações que o movimento cristão primitivo sofreu (e que o Espiritismo intenta restaurar na atualidade), sobretudo a partir do século III, momento em que se deixou seduzir pela política de Roma, cujo império estertorava graças aos abusos da governança. É óbvio que o espírita, individualmente, não está impedido de exercer a política. Se tiver vocação para isso e for chamado para essa tarefa, deve atender ao clamor de sua consciência e procurar exercê-la com dignidade, como fizeram tantos outros espíritas, por exemplo, Bezerra de Menezes, Eurípedes Barsanulto, Cairbar Schutel e José de Freitas Nobre. Se isso vier a acontecer, espontaneamente, que jamais nos apartemos das diretrizes traçadas por André Luiz, que nos alerta sobre as tentações e os perigos de confundirmos “os interesses de César com os deveres para com o Senhor”.4

Diante disso, não é recomendável que os políticos, simpatizantes ou adeptos do Espiritismo, façam da tribuna espírita um palanque. Jesus, nosso guia e modelo, quando esteve entre nós, jamais postulou ou se valeu do poder político estatal para pregar a implantação do “Reino de Deus” na Terra. Não é a Doutrina Espírita que precisa da política e sim a política que precisa do Espiritismo. Isto é, progredindo moralmente, por influência do Espiritismo, a sociedade prepará, de forma natural, bons políticos e até estadistas para atuarem nas instituições públicas:

O discípulo sincero do Evangelho não necessita respirar o clima da política administrativa do mundo para cumprir o ministério que lhe é cometido. O Governador da Terra, entre nós, para atender aos objetivos da política do amor, representou, antes de tudo, os interesses de Deus junto do coração humano, sem necessidade de portarias e decretos, respeitáveis embora. Administrou servindo, elevou os demais, humilhando a si mesmo.
Não vestiu o traje do sacerdote, nem a toga do magistrado. Amou profundamente os semelhantes e, nessa tarefa sublime, testemunhou a sua grandeza celestial. Que seria das organizações cristãs, se o apostolado que lhes diz respeito estivesse subordinado a reis e ministros, câmaras e parlamentos transitórios? [...]5

Por isso mesmo, “Deus confere a autoridade a título de missão, ou de prova, quando julga conveniente, e a retira quando bem o entende”.6 Emmanuel, tal qual André Luiz, também abordou essa questão delicada. Respondendo à pergunta: “Como se deverá comportar o espiritista perante a política do mundo”,7 aconselhou:

– O sincero discípulo de Jesus está investido de missão mais sublime, em face da tarefa política saturada de lutas materiais. Essa é a razão por que não deve provocar uma situação de evidência para si mesmo nas administrações transitórias do mundo. E, quando convocado a tais situações pela força das circunstâncias, deve aceitá-las não como galardão para a doutrina que professa, mas como provação imperiosa e árdua, onde todo êxito é sempre difícil. O espiritista sincero deve compreender que a iluminação de uma consciência é como se fora a iluminação de um mundo, salientando-se que a tarefa do Evangelho, junto das almas encarnadas na Terra, é a mais importante de todas, visto constituir uma realização definitiva e real. 
Não devemos pedir ao Espiritismo o que ele não nos pode dar.8 A estratégia equivocada de Judas que, embora bem intencionado, pretendia utilizar a política terrena, para acelerar o processo de implantação do Evangelho na Terra, é uma advertência perene a todos nós, pois “as conquistas do mundo são cheias de ciladas para o espírito e, entre elas, é possível que nos transformemos em órgão de escândalo para a verdade que o Mestre representa”.9 A Humanidade progride por meio dos indivíduos, que se melhoram pouco a pouco. É pelo desenvolvimento moral que se reconhece uma civilização completa.
Os povos que só vivem a vida do corpo, cujo poder se baseia apenas na força e na extensão territorial, um dia fenecerão, pois a vida da alma prevalece sempre: [...] Aqueles cujas leis se harmonizam com as leis eternas do Criador, viverão e servirão de farol aos outros povos.10
Todos podemos contribuir com nossa parte para acelerar as esperadas mudanças sociais: “A responsabilidade pelo aperfeiçoamento do mundo compete-nos a todos”.11 O Espiritismo não depende da política terrena para atingir seus fins. Triunfará, porque se funda nas leis naturais, sem que seja necessário violentar a consciência dos incrédulos. Deus não conduz o homem por meio de prodígios, mas deixa que tenha o mérito da própria conquista, que se dará, mais cedo ou mais tarde, pelo convencimento da razão. Que estas breves reflexões fortaleçam a esperança de todos os que mourejam na seara espírita, para que o Brasil consiga realizar a missão redentora da qual é depositário. Mais importante que as colossais riquezas naturais do seu vasto território é a imensa diversidade racial, social e religiosa de seu povo. Se soubermos vivenciar o Evangelho, conforme Jesus ensinou, inevitavelmente faremos jus à vocação assinalada pelos Espíritos superiores de “coração do mundo, pátria do Evangelho”.

Referências: 
1Estado laico não é o mesmo que Estado ateu.Mantém neutralidade em matéria confessional, não adotando nem perseguindo nenhuma religião (ver Preâmbulo e art. 19 da Constituição Federal brasileira).
2XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 28. ed. 5. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Q. 60.
3KARDEC,Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Q. 573.
4VIEIRA, Waldo. Conduta espírita. Pelo Espírito André Luiz. 31. ed. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Cap. 10, p. 46.
5XAVIER, Francisco C. Vinha de luz. Pelo Espírito Emmanuel. 27. ed. 3. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Cap. 59, p. 137.
6KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap. 17, it. 9, p. 346.
7XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 28. ed. 5. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Q. 60.
8KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 2. ed. esp. 3. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Pt. 2, cap. 27, it.303, subit. 1, p. 476.
9XAVIER, Francisco C. Boa nova. Pelo Espírito Humberto de Campos. 3. ed. 5. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap. 24, p. 200.
10KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Q. 788.
11XAVIER, Francisco C. Libertação. Pelo Espírito André Luiz. 31. ed. 4. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Cap. 3, p. 46.



Extraído da Revista Reformador

terça-feira, 15 de maio de 2012

Entrevista de Fátima Farias ao jornalista Orson Carrara, editor do portal O Consolador

Confira na íntegra
Fátima Farias: 
“A vida é um perene aprendizado” 
A jornalista paraibana fala sobre o movimento espírita na Paraíba
e suas atividades na divulgação espírita
 
 

Maria de Fátima Farias (foto), mais conhecida no meio espírita como Fátima Farias, natural de Boa Vista-PB e há 33 anos radicada na cidade de João Pessoa, capital da Paraíba, é bacharel em Comunicação Social pela UFPB, com formação em Jornalismo e Relações Públicas.
Espírita desde 1994 e autora do livro “Encontro com Consciências – diálogo da unidade com a diversidade”, Fátima faz parte da equipe dirigente da Federação Espírita Paraibana, em que exerce o cargo de Assessora de Comunicação Social e vice-diretora do Depto. de Divulgação
Doutrinária.  
Na entrevista que gentilmente nos concedeu, ela fala sobre suas atividades e o movimento espírita paraibano.

Faça um perfil do movimento espírita na Paraíba.
Cada vez mais crescente, tanto em quantidade, mas, sobretudo, e o melhor, em qualidade.  Os longos mandatos dos presidentes da Federação Espírita Paraibana (em 96 anos foram apenas sete) têm favorecido toda a pavimentação do positivo panorama atual. Acredito que a ininterrupção, de certa forma, facilitou o progresso das ações. Cada um contribuindo para semear o que temos hoje. A trajetória está pontilhada por fatos interessantes. Estes detalhes podem ser conferidos no portal www.fepb.org.br, no link que trata da história da FEPB e nos perfis dos presidentes.
Em seu trabalho de divulgação espírita, o que mais lhe chama a atenção?
É a ausência de preconceito e a receptividade dos meus colegas jornalistas, tanto no sentido de repercutir as notícias quanto de me procurar, no convívio diário da Redação, para conversar ou obter maiores esclarecimentos sobre a Doutrina Espírita. Nunca enfrentei dificuldades para abrir e conquistar espaços. Aliás, divulgar a mensagem espírita é muito fácil, porque, por si só, ela desperta interesse e atrai a atenção de leitores, ouvintes e espectadores.

De que modo as entrevistas que tem tido oportunidade de preparar chamaram a atenção do público?
Entrevistei Divaldo Franco várias vezes, o neurofísico francês Patrick Drouout, o pastor Nehemias Marien, o arcebispo Dom Aldo Pagotto, os artistas Nando Cordel e Paulo Figueiredo, só para citar alguns. Pois bem, as pessoas que não liam o jornal no dia, mas que ouviam comentários da repercussão positiva, me solicitavam cópias da entrevista. Foi quando decidi reuni-las no livro “Encontro com Consciências – diálogo da unidade com a diversidade”, que reúne entrevistas com diversas personalidades. Proporciona ao leitor uma visão sobre a consciência atual e evolutiva do ser, num cunho ecumênico. Contém abordagens sobre ciência, filosofia, religião, arte e cultura.
Na elaboração de matérias, quais foram as mais marcantes?
A primeira foi sobre o Museu das Almas do Purgatório em Roma, cujo acervo legitima a comunicação de Espíritos na própria Igreja. O fato é que o parapsicólogo baiano Clóvis Nunes foi entrevistado no programa Fantástico, do dia 28 de outubro de 2001, sobre o assunto, por acompanhar a reportagem in loco. O detalhe é que ele me concedeu um furo, numa entrevista de página inteira, inclusive com chamada na capa, intitulada “Espíritos se comunicam na Igreja”, publicada no mesmo domingo. E assim os leitores do jornal O Norte conheceram as novidades logo cedo, enquanto os telespectadores só conferiram no final da noite. Outra matéria, que considero a mais marcante  da minha carreira, foi a reportagem sobre Chico Xavier. Tive a felicidade de passar a Semana Santa de 2002 hospedada em sua residência e participar das comemorações do seu último aniversário entre nós – 92 anos. Três meses depois ele deixou este planeta. Este foi um grande presente que recebi de minha amiga Lisle Lucena, que há vários anos desfrutava da amizade daquele ser especial e costumava ser sua hóspede. Cada vez que relembro daqueles dias e convívio com aquela energia tão salutar e indescritível – modelo do Cristianismo – ainda me emociono. Sinto-me privilegiada e gratificada! A reportagem completa está no final do meu livro. 
Como tem sido sua atuação na mídia espírita, especificamente?
Já participei de vários sites e colaboro com as revistas Tribuna Espírita e a Revista Internacional do Espiritismo. Recentemente inaugurei o blog  www.horizontes-fatimafarias.blogspot.com. É um espaço, como o próprio nome já sugere, onde abordarei os mais diversos assuntos voltados para temáticas ligadas a notícias do Bem, que favoreçam a difusão de aspectos artístico-culturais e a qualidade de vida, sobretudo à consciência atual e evolutiva do ser. 
Fale-nos algo sobre a programação da Federação Espírita da Paraíba.
Todos os departamentos estão em plena efervescência de ações, em todas as vertentes: cursos, assistência social, atendimento fraterno e mediúnico, infância e juventude. Na área de Comunicação Social e Divulgação Doutrinária, têm-se conquistado excelentes espaços na mídia, especialmente para difundir os eventos e esta avalanche de filmes espíritas, tem-se encartado diversos suplementos em jornais dominicais. Agora, um dos pontos altos para massificar a mensagem espírita é o projeto “Divulgando a imortalidade”, que acontece no período de Finados, com faixas e distribuição de mensagens nos cemitérios da capital e de diversos municípios.
Na capital e interior, a Doutrina Espírita igualmente tem despertado
interesse e busca por livros, estudos e cursos? Como tem sido a preparação  para essa nova fase de divulgação espírita no Estado?
A gestão do presidente José Raimundo de Lima contribuiu bastante para a expansão da mensagem espírita na Paraíba. Houve ampliação no número de centros espíritas, tanto na capital quanto no interior, além de um maior intercâmbio com a implantação de polos e coordenadorias regionais. A Federação Espírita da Paraíba (FEPB), inserida no contexto nacional da Federação Espírita Brasileira, dissemina todas as diretrizes federativas para viabilizar o máximo de potencial que contemple o estudo, a divulgação e o atendimento, à luz da Doutrina Espírita.
A confortável sede da FEPB propicia espaço muito favorável para eventos doutrinários. Comente sobre os eventos de caráter estadual utilizando a citada sede.
A mudança da sede para um espaço maior foi fundamental para a expansão das atividades e um melhor atendimento ao público: livraria ampla e com um acervo sortido, salas amplas para os cursos. Temos um centro de convenções, sendo o auditório maior com capacidade para mais de 800 pessoas, climatizado e com cadeiras confortáveis. Para se ter uma ideia da demanda do público, nas duas recentes visitas de Divaldo Franco foi preciso providenciar telão para acolher o público.
Deixe-nos uma mensagem final.
Acho que ainda tenho muito o que aprender, porque a vida é um perene aprendizado, para se burilar nossas imperfeições. Deus é uma luz e a energia que busco, no sentido de me nortear e fortalecer. E, assim, a mensagem em que mais o identifico é assinada por Léon Denis: ‘Tende como templo o Universo, como altar a consciência, como lei a Caridade, como imagem Deus’. Por fim, sou muito grata pela oportunidade de me fazer vivenciar a troca de papéis, de entrevistadora a entrevistada.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Acréscimo de misericórdia

“Procurai primeiramente o Reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas de acréscimo.” (Mateus, 6:33; Lucas, 12:31.)

Clara Lila Gonzales de Araújo
É possível aquilatar a extensão das bênçãos que dimanam da misericórdia de Deus? Sabemos avaliar a amplitude das oportunidades que nos chegam, exercitando o amor ao próximo e incumbindo-nos de aplicar hoje o tempo, a energia e os esforços que desperdiçamos outrora? De acordo com o versículo acima, os resultados surgidos das conquistas de valores espirituais nos permitem receber, por acréscimo da generosidade divina, múltiplos ensejos de bem realizarmos iluminadas atividades, que procuramos vivenciar em meio a júbilos de esperança e paz. Essas manifestações, em forma de pensamentos, de conversações, de hábitos, de conduta, mercê da aquisição de ideais superiores, são propósitos que se exprimem em atos de caridade legítima, levando-nos a sentir a presença de Deus em nós e descobrindo o seu verdadeiro Reino. Entretanto, tornar-se espírita não é santificar-se de um momento para o outro, além de não significar privilégio, dadas as condições da justiça superior, que se manifesta em nós como consequência da lei de causa e efeito, mesmo considerando as lutas difíceis que travamos durante anos de dedicação e serviço em favor do Espiritismo. 

Constantino, Espírito protetor, na mensagem inserida em  O Evangelho segundo o Espiritismo, afirma, terminante: Bons espíritas, meus bem-amados, sois todos obreiros da última hora. Bem orgulhoso seria aquele que dissesse: Comecei o trabalho ao alvorecer do dia e só o terminarei ao anoitecer. Todos viestes quando fostes chamados, um pouco mais cedo, um pouco mais tarde, para a encarnação cujos grilhões arrastais; mas há quantos séculos e séculos o Senhor vos chamava para a sua vinha, sem que quisésseis penetrar nela! Eis-vos no momento de embolsar o salário; empregai bem a hora que vos resta e não esqueçais nunca que a vossa existência, por longa que vos pareça, mais não é do que um instante fugitivo na imensidade dos tempos que formam para vós a eternidade.1
 
Urge, desse modo, perseverar no trabalho a fazer, tendo a necessária paciência, sobretudo, ao enfrentar os rudes resgates que porventura surjam frente às surpresas da marcha existencial, sem nos entregarmos ao desânimo. Determinados companheiros espíritas não aceitaram essa realidade, deixando de alcançar planos mais elevados no cumprimento de suas tarefas e abandonando a esfera de lutas enobrecedoras. Sentiram-se inconformados, em meio às provações, por não terem seus desgostos diminuídos, sem aproveitar da aplicação dos ensinamentos doutrinários para melhor compreender a equidade divina, esquecendo-se de que, ao sofrermos os prejuízos de nossos erros, “por infinita misericórdia, devemos ter que Deus não é inexorável, deixando sempre viável o caminho da redenção”.2 Allan Kardec faz excelente análise sobre as implicações das penas futuras segundo o Espiritismo, advertindo: [...] todos têm o mesmo ponto de partida e nenhum se distingue em sua formação por melhor aquinhoado; nenhum cuja marcha progressiva se facilite por exceção: os que chegam ao fim, têm passado, como quaisquer outros, pelas fases de inferioridade e respectivas provas. [...] Todos somos livres no trabalho do próprio progresso [...]. O romeiro que se desgarra, ou em caminho perde tempo, retarda a marcha e não pode queixar-se senão de si mesmo.3 [...] Podendo todo homem libertar-se das imperfeições por efeito da vontade, pode igualmente anular os males consecutivos e assegurar a futura felicidade. A cada um segundo as suas obras, no Céu como na Terra: – tal é a lei da Justiça Divina.4
 
A disposição sincera de servir ao semelhante, que empreende-mos na labuta junto à seara de Jesus, procurando evoluir de forma perseverante, nos faz superar os padecimentos como meio de sanar os erros morais que cometemos em existências pregressas. Assim agindo, angariamos a simpatia dos Espíritos superiores que nos concedem amparo para concretização das inúmeras possibilidades que a prática do Espiritismo oferece, fortalecendo-nos e iluminando-nos para o futuro, devidamente elucidados pelo conhecimento espírita. Deus, pois, não cria seres privilegiados, mas “fez da felicidade o prêmio do trabalho e não do favoritismo, para que cada um tivesse seu mérito”.5 O Espírito Emmanuel faz referência às circunstâncias em que desencarnaram muitos dos grandes vultos da Humanidade, após a vivência de desmedidas agruras, como pessoas que foram: exiladas, trucidadas, ludibriadas, famintas, enfermas, perseguidas, endividadas, paupérrimas, indigentes, guilhotinadas, em penúria extrema, assassinadas etc., além das que viveram menos penosamente, mas não deixaram de enfrentar duras provas. Trata-se de um alerta para os infortúnios e reveses terrenos que parecem absurdos de serem experimentados por criaturas reconhecidamente valiosas e que contribuíram para o progresso do mundo. Nesse sentido, conclui o eminente mentor espiritual: [...] é forçoso reconhecer que passaram, entre os homens, também sofrendo e lutando, junto à bigorna do trabalho constante. Cada consciência é filha das próprias obras. Cada conquista é serviço de cada um. Deus não tem prerrogativas ou exceções. Toda glória tem preço. É a lei do mérito de que ninguém escapa.6
 
Certamente, a advertência do generoso Emmanuel é para avivar, principalmente, a vigilância dos espíritas que, ao se defrontarem com os infindáveis problemas a vencer, sobretudo na hora crucial do testemunho, se não tiverem aproveitado os conhecimentos doutrinários apreendidos, sabendo empregá-los em todos os momentos terrenos para fortalecimento do Espírito, de nada valerão os esforços que desenvolverem em benefício da Doutrina, por falta de méritos conquistados no caminho da legítima redenção de si mesmos. O Espiritismo convida-nos a seguir no rumo certo ao destacar que as verdadeiras ideias a serem cultivadas pelos homens, devem estar em completa sintonia com os princípios lidimamente cristãos. Em visita à “Mansão Paz”, escola espiritual luminosa, que permanece sob a jurisdição de “Nosso Lar”, os Espíritos Hilário e André Luiz são esclarecidos por seu diretor Druso sobre o atendimento aos Espíritos que ali aportam, necessitados e infelizes, mas decididos a trabalhar pela própria regeneração, conseguindo compreender a “importância da existência carnal, como sendo verdadeiro favor da Divina Misericórdia”7 e do esforço a ser despendido para se adaptarem aos mecanismos da imprescindível Justiça. Druso, no entanto, reforça o valor da súplica, para que, ao encarnarem, não percam o ensejo de melhoria espiritual:
– A prece, no sentido a que aludimos, é sempre um atestado de boa vontade e compreensão, no testemunho da nossa condição de Espíritos devedores... Sem dúvida, não poderá modificar o curso das leis, diante das quais nos fazemos réus sujeitos a penas múltiplas, mas renova-nos o modo de ser, valendo não só como abençoada plantação de solidariedade em nosso benefício, mas também como vacina contra a reincidência no mal. [...] a prece faculta-nos a aproximação com os grandes benfeitores que nos presidem os passos, auxiliando-nos a organização de novo roteiro para a caminhada segura.8
 
A melhor forma de orar é a que se traduz em trabalho, integrando-nos aos planos da Providência.O espírita consciente não é simples detentor de conhecimentos doutrinários, apenas pelo puro prazer intelectual. Sabe que problemas advirão, de acordo com a responsabilidade de agir dignamente diante das leis divinas; topará com o “orgulho, o egoísmo, a ambição, a cupidez, o fanatismo cego, os quais, levados às suas últimas trincheiras, tentam barrar-lhe o caminho e lhe suscitam entraves e perseguições”.9 Essas lutas, no entanto, são de ordem moral e haverão de ser vencidas, passo a passo, por acréscimo de misericórdia do Pai Amantíssimo e de Jesus, Excelso Condutor de nossas almas, cuja aplicação de seus ensinamentos permite construir o Reino de Deus em nós.
 
Referências:
1 KARDEC, Allan.  O evangelho segundo o espiritismo . Trad. Guillon Ribeiro. 130. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Cap. 20, it. 2.
2 ______.  O céu e o inferno . Trad. Guillon Ribeiro. 2. ed. esp. 2. reimp. Rio de Janei-ro: FEB, 2011. P. 1, cap. 7, it. Código pe-nal da vida futura, subit. 29.
3 ______. ______. Subit. 32.
4 ______. ______. Subit. 33.
5 ______. ______. Subit. 32.
6 XAVIER, Francisco Cândido. Justiça divina. Pelo Espírito Emmanuel. 13. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Lei do Mérito, p. 121-123.
7 ______.  Ação e reação. Pelo Espírito André Luiz. 2. ed. esp. 2. reimp. Rio de Ja-neiro: FEB, 2010. Cap. Ante o Centenário.
8 ______. ______. Cap. 19, p. 280.
9 KARDEC, Allan.  O evangelho segundo o espiritismo . Trad. Guillon Ribeiro. 130. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Cap. 23, it. 17.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Bater ou não bater, eis a questão

Wellington Balbo

Com ou sem palmada educar os filhos é a missão primordial dos pais. Há os que defendem a palmada como forma de educar alegando que as receberam e são pessoas de bem, e há os que defendem a posição de que para educar não é preciso dar palmada. Eu, por exemplo, tomei palmadinhas e palmadões e ainda assim fiz muita besteira nesta vida.

Em meu caso não sei se as palmadas resolveram muita coisa.

A verdade é que hoje as palmadas estão saindo de moda. Poucos pais a utilizam para educar. No entanto, saiu a palmada e entrou em ação a permissividade. Tudo pode, tudo vale. É proibido proibir os filhos. Atualmente os pais permitem muito e cobram pouco. E como cobram pouco, quando cobram geralmente os filhos torcem o nariz para pagar. Óbvio, não estão acostumados.

A chamada geração Z está crescendo muito mimada e sem ideia de responsabilidade, entretanto não quero generalizar. Se você é um pai ou mãe que consegue impor limites aos filhos, ensiná-los a como gastar, ou, melhor dizendo, a como não gastar o seu dinheiro, a apreciar o estudo e respeitar o semelhante está no caminho certo.

Outro dia presenciei uma cena muito interessante do Gustavo, um velho amigo. A filha, uma adolescente de 15 anos queria ir a um baile com as amigas. O Gustavo, sempre reticente quando a questão se refere a balada, disse à filha que ela não iria ao baile. Mas ela teimou, insistiu, a mãe entrou no meio da conversa pra negociar e por fim chegou o exército muito bem armado: as amigas da filha do Gustavo implorando para que ele deixasse a garota ir ao baile. “Deixa, tio, por favor” – pediam as meninas com aquela voz manhosa.

E após muita conversa e negociação ficou decidido o seguinte: Gustavo cederia e deixaria a garota ir ao baile, porém... ah, porém, sempre ele no meio, a filha deveria apresentar o boletim no 4 bimestre, (aquele bimestre que muitos alunos costumam desprezar por já terem fechado as notas), com a média acima de 7,0. Caso isso não ocorresse a garota passaria toda a época de férias sem poder sair de casa e estudando. A menina, com a irreverência própria dos adolescentes, afirmou empolgada: “Tirar 7,0 na escola é mamão com açúcar! Puxa, pai, o senhor nem exigiu muito!” E Gustavo respondeu: “É para você poder pagar, minha filha!” Prevenido como todo pai Gustavo escreveu documento de próprio punho para que a filha assinasse e então selassem o acordo. E assim foi feito. Papel assinado e meninas contentes. A filha de Gustavo saiu aquela noite.

E os dias transcorreram tranquilamente até que chegou o momento de pagar a fatura, ou seja, da filha mostrar o boletim ao pai. Era uma sexta feira. Gustavo pediu o boletim e para sua surpresa não havia açúcar naquele mamão, mas, sim, sal. A filha não cumprira com o combinado e as notas estavam bem abaixo do medíocre 7,0 acertado dias atrás. Em poucas horas lá estavam as amigas da filha de Gustavo pedindo a ele para que cedesse e deixasse a garota ir ao shopping. Ele apenas retirou de seu bolso o documento assinado pela filha e mostrou para todas elas dizendo: “ Eis o documento, eu cumpri com a minha parte no combinado, agora, minha filha, é a sua vez!”.

A garota, inconformada, redargüiu: “Mas pai, terei que ficar em casa estudando as férias inteiras?” E Gustavo arrematou sem palmadas: “Exatamente, minha filha, o que é combinado não é caro”. E, virando-se para as amigas de sua filha pediu licença para que a sua menina pudesse começar em breves minutos a estudar Geometria.

Gustavo não bateu, mas também não foi permissivo. Será que educou?